sexta-feira, 15 de agosto de 2008

A TRIBO DOS ASTRÓLOGOS LIVRES

ASTROLOGIA E LIBERDADE







A idéia de liberdade é uma das mais fascinantes para todos nós, talvez por estarmos presos a um corpo, presos a tantos compromissos e necessidades, inclusive a da mais básica subsistência.
Creio que, se considerarmos as necessidades básicas da vida (comer, dormir, relacionar-se, respirar), não somos realmente livres. Mas se considerarmos nosso direito de escolher nossos caminhos, de escolher nosso gesto, de elaborar e aprender nossos procedimentos para atender as necessidades básicas, somos livres sim.
Talvez tenhamos mesmo um destino a cumprir, mas a qualidade do ato de cumprir esse destino pode ser nossa escolha. Não creio que alguém tenha nascido para sofrer. Nada na natureza nasceu para sofrer. A dor pode ser inevitável em certos casos, mas ficar sofrendo é uma escolha.
A Astrologia exerceu sobre mim um fascínio extraordinário exatamente por causa disso. Ela apresentou a possibilidade de mostrar caminhos da liberdade, de escolher entre aquilo que pode nos limitar e prender e aquilo que pode nos conectar ao universo e nos fazer usar livremente o que temos de melhor em nossa personalidade.
O conhecimento da Astrologia é a compreensão das leis que regem o universo, é a possibilidade de nos integrarmos ao ritmo e aos ciclos que estão harmonizados com nossa essência e nossas potencialidades. Isso é maravilhoso. Isso é liberdade. É como aprender a ouvir a musica da natureza e poder se movimentar de acordo com ela, com leveza, fluindo, como uma dança mesmo. Creio que é essa qualidade da Astrologia que traz para ela tantos apaixonados, tantos estudiosos, tantos praticantes.
Mas a realidade de um mundo que estabeleceu outras regras e padrões é diferente. A necessidade de criar prisões para as almas, de enquadrar os espíritos para que eles acreditem que essa é a única forma possível de sobreviver em um mundo hostil, é uma característica que se desenvolveu entre os humanos durante sua historia. Esses acordos que mantém as pessoas na "separatividade", separadas de si mesmas, separadas dos outros, não reconhecendo jamais que somos células do mesmo corpo, navegantes do mesmo barco, responsáveis uns pelos outros, comprometidos com a grande nave terra, todos, sem exceção, igualmente importantes, igualmente responsáveis, cada um com sua função, cada um com sua qualidade a ser exercida no sentido de conduzir adequadamente o planeta em direção ao infinito.
E cada um de nós, cada ser humano, fazendo a diferença.
O acordo coletivo, que existe há séculos, e dentro do qual já nascemos, e que, portanto não assinamos e não teríamos necessariamente que obedecer, diz que o ser humano precisa de controle, precisa de limites, precisa de que alguém que se apresente como superior ou mais bem preparado lhe diga o que fazer, o que é certo e errado, em vez de mostrar que todos somos capazes, todos temos nosso papel e nossa responsabilidade, e cada um de nós é o único autor de seu próprio destino.
Dentro desse acordo coletivo de que somos seres separados de nós mesmos e do universo, e conforme a presunção de que alguns seres são mais especiais do que outros, e que, portanto devem saber melhor o que é certo e errado para os outros, muitos astrólogos estão se propondo a estabelecer as regras de comportamento e exercício da profissão de astrólogo.
Não perceberam que estão tirando da Astrologia sua grande vantagem, seu maior mérito, a liberdade que ela proporciona e a consciência que possibilita.
Estão sendo coniventes com um acordo histórico que minimiza o ser humano, transformando-o em um irresponsável que precisa que lhe digam o que fazer. Reconhecem em todos nós apenas crianças inconseqüentes ou cidadãos possivelmente mal intencionados ou mal formados, cidadãos que precisam de uma "ética" externa, estabelecida em comum acordo por aqueles que se intitulam mais especiais e lúcidos, seja imposta.
Para achar que o outro está errado, que a prática astrológica dele é inadequada, alguém precisa se colocar no lugar de ser capaz de julgar, alguém tem que se colocar na condição de ser superior ao outro. Quem disse isso? Quem os elegeu superiores? Quem lhes deu o direito de tirar a liberdade de ir e vir de quem ama e pratica a Astrologia? Quem lhes disse que as pessoas não podem errar e aprender com seus erros, como tem acontecido há milênios?
Para nos convencer usam argumentos nos quais eles mesmos acreditam, porque pensam igual, talvez porque noutras condições, fariam o mesmo. Dizem que aventureiros vão se apropriar da Astrologia, como um tal de sindicato dos terapeutas alternativos. Dizem que a psicologia acadêmica vai se apropriar da Astrologia e torná-la uma simples cadeira nas faculdades. Dizem que usurpadores gananciosos querem se apropriar da astrologia de todas as formas. Parece que estão com medo de perder algo do qual se julgam proprietários. Querem acreditar nisso e querem que todos nós acreditemos nisso. Não suportam a idéia de que Astrólogo é livre e seu trabalho e sua vida dependem de sua consciência e atuação apenas, de tal modo que aqueles que não fazem corretamente e com responsabilidade, não sobrevivem da Astrologia. O próprio mercado e a postura do astrólogo é o que regula seu trabalho, não precisando ninguém de fora para fazer isso.
Claro que existem os enganadores, os tais de picaretas. Alguns exímios em sua arte, tão bons em enganar que certamente serão os primeiros a querer e conquistar a proteção do sistema, os mais empenhados talvez em se colocar na posição de "respeitabilidade" por serem oficializados e andarem de acordo com a lei - com seus registros, crachás e carteirinhas -, lei essa que muitos de seus assemelhados criaram para proteger-se e manter-se no lugar de controlar a situação.
Na minha compreensão, as pessoas que estão empenhadas em enquadrar, institucionalizar, controlar a Astrologia e sua prática, são pessoas que tem duas motivações básicas:
Uma é a necessidade de controlar, pois são personalidades controladoras e tirânicas. O tirano, de acordo com uma compreensão de Nietzsche, é uma pessoa que se considera portadora do Bem, e que conseqüentemente acredita que todos os outros, todo “resto” é o Mal, e que, portanto, precisam ser controlados.
Outra motivação que observo é a do medo. Medos que querem que tenhamos todos, medo que faz as pessoas se agregarem por causa do perigo dos fantasmas, dos monstros noturnos e terríveis que povoam seu universo, exatamente como deviam fazer os homens das cavernas na escuridão da noite, se unindo pelo medo pura e simplesmente para se proteger do perigo que eles imaginavam que existisse. Dessa forma, provavelmente, surgiram a maioria das crenças sombrias que povoam o inconsciente da humanidade. Assim surgiu também um modelo paternalista e protetor, adotado por todos os tiranos e poderosos através dos tempos.
A idéia de que precisamos nos unir para nos protegermos de algo por causa do medo – seja de fora da comunidade astrológica, seja dentro dela mesma – é sórdida e contamina a beleza da Astrologia e seu poder de nos mostrar os caminhos da liberdade, além do fato de não despertar nada de bom nas pessoas, apenas sombra e medo. Quem prefere escolher mobilizar-se pelo medo? Quem quer ser cúmplice desse acordo perverso? Quem escolhe ser contaminado e pegar essa doença também, quando tem diante de si todo um universo de possibilidades maravilhosas, inclusive a de não ter que dar satisfação para nenhum suposto e auto-intitulado protetor de nossos interesses?
Existe também uma argumentação de que aqueles que não aceitam os modelos regulamentadores e instituicionalizadores propostos são seres anacrônicos, dinossauros da Astrologia que não querem ver sua modernização e adaptação às condições do mundo contemporâneo.

Será mesmo?

A idéia de estruturas hierárquicas organizadas e protetoras é tão moderna assim? A idéia de que precisamos de líderes paternais ou maternais para nos dar a direção da vida e estabelecer as regras do certo e errado – como se fossemos todos inconscientes de nossa capacidade, responsabilidade e poder pessoal – é uma atualização da pratica profissional da Astrologia?
Pensemos um pouco nisso também...
A Tribo...
Existe sim a possibilidade de união entre Astrólogos. Somos seres que vivem naturalmente em união, é uma condição do ser humano. Mas podemos escolher se queremos nos unir sob a autoridade de alguém que se supõe melhor que os demais – e que na verdade só acredita que as coisas funcionam quando são controladas por sua sabedoria e de seus assemelhados – ou podemos escolher nos unirmos pelo simples respeito à condição humana e pelo amor à Astrologia.
A Amizade, palavra atribuída e relacionada com o símbolo Urano, é talvez a melhor, a mais saudável forma de promover o encontro das pessoas que possuem em comum o amor pela Astrologia e a liberdade. Isso acontece naturalmente, amizade não pode ser forçada, simplesmente acontece porque tem um fio condutor que vai nos atraindo uns para os outros, e esse fio é a própria Astrologia. Vamos caminhando livremente e encontrando pelo caminho outros seres livres como nós, que acreditam nas mesmas coisas e que sabem que cada um é responsável pelo seu destino e pelos seus atos, e temos um mapa que nos é dado pela própria Astrologia para caminharmos direito, para agirmos em harmonia com as leis do universo e as leis da vida, e assim, vamos encontrando seres que tem a mesma vibração, a mesma consciência, o mesmo desejo de liberdade, e formando uma tribo cada vez maior e mais forte.

Quanto aos "neo tiranos" de plantão, e todos aqueles que acreditam que podem controlar a pratica da Astrologia, - com todo respeito por sua boa intenção e boa vontade - deixemos que eles se controlem a si próprios e àqueles que ainda não entenderam que não podemos abrir mão de uma das melhores coisas que a Astrologia nos proporciona, a possibilidade de sermos livres e autores de nosso próprio destino.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

PROJETO DE VIDA

De que serve uma gota d’água?
Desde o momento em que despenca da bica, da torneira, da nuvem, até o instante em que se esborracha no chão do planeta, sua existência acontece, sua finalidade se estabelece e é absoluta sob qualquer ponto de vista, seu projeto é claro: cair.
O formato absolutamente aerodinâmico da gota d’água, talvez uma das formas mais fluídicas que existam – consegue cortar o ar como o mais afiado dos bisturis – define seu projeto existencial, define o ato de cair, simplesmente cair.
Pode parecer efêmera essa existência, viver para cair, existir para cair, obedecer a lei da gravidade pura e simplesmente como se nada mais houvesse para acontecer. Mas é assim que acontece, e talvez seja assim que aconteça com todos nós.
Vivemos para seguir uma lei, talvez tão exata e inquestionável quanto a lei da gravidade, talvez tão misteriosa quanto a lei que faz os prótons e elétrons gravitarem em torno de um núcleo invisível, e vivemos com a precisa duração do intervalo entre o momento em que somos arrancados da nuvem, da bica, da torneira, da fonte de onde viemos, até o momento único em que nos esborrachamos no encontro com o infinito. Esse é nosso projeto de vida.
A aerodinâmica do corpo que ocupamos, sua constituição, sua forma, definem, como na gota d’água, o projeto de nossa existência, nossa queda em direção ao infinito, nosso recurso absoluto para seguir com a lei que nos conduz.
Temos uma opção fantástica, uma escolha definitiva: dispomos de um recurso que pode fazer com que o projeto de vida tenha um sentido maior: a possibilidade da consciência, a possibilidade de conhecer nosso projeto, compreender nossa finalidade, nos integrarmos à existência não apenas através da forma, mas também por meio do conhecimento e da expansão do uso de nossos recursos e qualidades.
Uma gota d’água que sabe ser uma gota d’água, que se conecta com o significado de sua existência, que compreende sua função no conjunto das forças universais que a originaram. Saber-se uma gota d’água é mais que poético, é como se apropriar do próprio destino, integrar-se à lei, usufruir plenamente dos recursos que Aquele que nos gerou, a fonte, a nuvem, nos concedeu para atendermos a essa finalidade maior que talvez jamais possamos compreender em sua totalidade.
Olhando para o horóscopo, podemos imaginar para onde a gota d’água cai. Se entendermos que a gota é análoga ao ascendente, seu projeto é “cair”, seguir seu destino, e seu formato especial existe em função desse projeto. Tudo perfeitamente análogo à função do ascendente no horóscopo, o Projeto de Vida.
Somos gotas d’água lançadas no infinito, em queda até o momento final, com o formato perfeito e adequado à nossa função, àquilo para o qual a força universal nos fez existir, equipados e formatados para atender uma determinada função dentro desse eterno movimento, desse fluxo, desse tipo de queda que é nossa existência.
Repito a pergunta, cair para onde?
Pensando no horóscopo e sua numeração, será que nosso movimento é em direção a casa XII, acompanhando o Sol como o percebemos, acompanhando o movimento aparente dos signos e planetas em direção ao nascente? Ou será que seguimos a ordem lógica das casas, 1, 2, 3, etc, como um movimento lógico e compreensível?
O entendimento dessa direção, do sentido da gota d’água será aplicável a qualquer condição do horóscopo, será uma leitura possível para sabermos para onde a “energia” planetária se dirige, onde fica o foco de nosso agir.
Bem, de todas as análises que pude fazer, apenas uma resposta me ocorreu, só existe uma direção para onde todas as energias representadas pelas configurações planetárias se dirigem, só existe uma direção possível para onde se encaminham os significados do ascendente e de todas as casas, apenas para um lugar se dirige à gota d’água em sua queda poética na velocidade e no tempo de uma encarnação: o centro.
Tudo no mapa parece se dirigir para o ponto central do circulo. Não existe necessariamente uma seqüência , como propõe tantos autores, iniciando na casa I e prosseguindo até a XII, marcando o movimento da vida. Isso é uma compreensão apenas, um modo lógico de ver as coisas.
O Centro do horóscopo é o próprio centro de si, representa o centro do universo, é a metáfora da Fonte Divina. É o núcleo para onde todas as energias, toda resultante de nossos atos, todo efeito causado e toda causa geradora se encaminham.
O centro de si mesmo é a grande meta, o projeto, o receptáculo das energias, a pia batismal que recolhe a gota d’água de cada projeto desencadeado, cada movimento executado na grande dança da existência. É o lugar onde mora o espírito, o olho d’água de onde brota toda existência, onde são gerados a realidade e todos os conceitos e verdades e mentiras e crenças, que tomam sua forma reconhecível quando se manifestam na periferia do circulo, nas casas.
O centro é de onde tudo flui e para onde tudo volta.
Tudo começa ali e termina ali mesmo.
A casa XII é um campo de projeção psíquica cujo foco é o centro do horóscopo. Ela apenas representa possibilidades criadas pela própria essência da pessoa. O mesmo acontece com os valores simbolizados pela casa II, pelo passado compreendido através da casa IV, pela imagem, pelos conceitos, pelos critérios e tudo mais representado por cada uma das casas do horóscopo. Tudo que fazemos, somos, acreditamos que somos se encaminha para o centro do horóscopo, e ao mesmo tempo, tudo isso é uma manifestação, um reflexo da luz que é emanada a partir desse centro.
Quando nos tornamos esse movimento, quando nos sabemos gota d’água em movimento, incorporamos de fato o projeto de nossa existência e passamos a Ser o que temos que ser. Isso se repete para cada uma das casas, como uma porção de gotas d’água caindo em direção a um único núcleo, o mesmo que as gerou como uma fonte que produz vapor que no devido tempo se transforma em gotas. Parece uma reflexão metafísica, mas é na verdade um fato comprovado e confirmado.
Quando assumimos uma relação firme e consciente com nossos recursos naturais, quando nos integramos ao movimento constante da vida, sem julgamento, sem escolhas de conveniência, tanto quanto uma gota d’água pode ser e fazer, nos tornamos o projeto e ai, nesse instante, cumprimos nosso papel divino, a função real para a qual nascemos e nos destinamos.
O fluxo refluxo energético que sempre reconhecemos ocorrer entre as casas opostas, Eu – Tu – Eu, etc, ocorre apenas no plano da identificação com a realidade aparente. Construção e destruição de valores, passado e futuro, liturgia e conexão divina, etc, todo movimento polar é uma descrição de um processo mental. Absolutamente valida dentro de uma proposta de realidade que dependa da crença na realidade aparente e física, mas ainda um começo, uma simples semente quando se imagina a possibilidade de uma integração verdadeira consigo mesmo e conseqüentemente com o infinito.
Todas as relações entre as casas, ou campos de projeção, passam a ser relações casuais e causais, enquanto a verdadeira e maior relação é de cada uma dessas experiências – que evidentemente se integram umas às outras – com o centro do ser, o núcleo gerador de todas as coisas.
Em outras palavras, cada uma das experiências representada pelas casas terrestres –particularmente o ascendente, que simboliza o próprio projeto de vida – por se encaminharem para o mesmo ponto de fuga (ou ponto de encontro) o centro do indivíduo, o coração, o núcleo de onde tudo emana, é destinada a “regressar”, voltar, cair em direção o centro de onde a energia que elas representam foi gerada.
É um verdadeiro processo de “queda”, mas podemos também chamar de entrega, entrega total ao abismo, permitir-se cair indefinidamente em direção ao centro, em direção a si mesmo, que é onde todas as gotas d’água se concentram e se convertem em vida, se tornam o caminho do infinito.
Permitindo ou não, isso acontecerá sempre.
A consciência desse movimento, desse fluxo e refluxo ao ponto central, onde na verdade nos encontramos, faz com que a roda da vida continue a girar, o “samsara” como dizem alguns. A diferença é que, em vez de estarmos sempre na periferia dessa roda, nos tornamos o centro, a fonte de todo movimento.
Dizem que a roda foi a maior invenção mecânica da humanidade. Creio que a roda é só uma projeção de algo realmente útil: o Eixo.